Pessoas com Potencialidades Educacionais Especiais
O link PPEES do blog Matemática & Surdez foi criado para que possamos postar nossas vivências e experiências com a educação de pessoas com (d)Eficiência. E se você tem uma história interessante aproveite este espaço para comentar, dividir experiências, e tudo mais dentro deste nosso universo de interesse.
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O Cheiro da Chuva
Esta história aconteceu em meados do ano de 2003, desenvolvendo coleta de dados no Instituto Felipe Smaldone (Belém/PA), a fim de coletar material empírico para ser utilizado como fonte de análise para a minha pesquisa de Especialização em Informática e Educação pela Universidade da Amazônia, UNAMA (monografia: A Imagem no Ambiente Logo Enquanto Elemento Facilitador da Aprendizagem com Crianças Surdas).
Com o olhar voltado para a importância que a imagem visual tem sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, e como ela interage com ele, em como poderíamos utilizar essa interação para uma melhor facilitação da aprendizagem do aluno surdo, estava trabalhando no laboratório de Informática da escola, neste dia, realizava atividades com a aluna J.N.S.C – chamarei a aluna nesse texto por Juju – que possuía como hipótese diagnóstica, surdez neurossensorial bilateral de grau profundo. A aluna cursava a 3ª série do Ensino Fundamental e tinha 9 anos de idade na época da pesquisa, estávamos assistindo o vídeo da história do “Chapeuzinho Vermelho”, produzido pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES, em LIBRAS e com legendas, que se configurava como uma das atividades que faziam parte de nossa coleta de dados.
Nos momentos finais da atividade a aluna olha para mim e sinaliza: “Sales… Chuva!”, e eu indago: “chuva?!”, e ela volta a afirmar: “é chuva!”. Fiquei muito confuso, pois estávamos no 3º andar em uma “sala de vídeo” – na verdade um hall entre escadas – que não tinha janelas e não tínhamos qualquer tipo de visão do ambiente externo… Foi o momento que pensei… “Já são quase meio dia… A Juju precisa descansar…”, visto que a escola possui semi-internato e as crianças sempre repousam depois do almoço. Conduzi então a aluna ao dormitório e a deixei com a pessoa responsável.
Na pressa do dia-a-dia e já atrasado para outros compromissos… Saí correndo para o elevador, e enquanto aguardava me debrucei na janela que estava à minha frente… E a grande surpresa!!! Eis que “caia do céu” o que o paraense, em geral, chama de Chuva Torrencial… Demorei um pouco a fazer a relação, até cheguei a contemplar a chuva – acho que eu é que precisava descansar -, porém quando relacionei os avisos da Juju à bela chuva que caia ali às minhas vistas… FIQUEI COMPLETAMENTE ATÔNITO!!! E me questionei: “Como a Juju adivinhou e/ou previu a chuva?” Esqueci a pressa e voltei em disparada ao dormitório e pedi para autorização para falar com a Juju… Ela já estava quase dormindo e olhou-me nos olhos e fez uma expressão facial, como quem me “dizia”: “você de novo!!!” Não hesitei e rapidamente a indaguei: “Juju como você sabia que estava chovendo?”…
Sinalizando ela me respondeu:
- “SALES, VOCÊ É BOBO…” (deu um sorriso…)
- “APRENDA A SENTIR O CHEIRO DA CHUVA” (fez o sinal de cheirar… respirou fundo… e deu outro sorriso…).
Depois de um “sorriso amarelo”… Voltei para o elevador e com a desculpa de estar esperando… Voltei-me para a janela…
RESPIREI FUNDO E APRENDI A SENTIR O CHEIRO DA CHUVA…
Isto foi o que aprendi com a Juju ao tentar “ensiná-la”…
Adriane disse:
Oi Sales,
Muito legal a sua história com a Juju… Serve de alerta para nós, profissionais da educação, sobre a importância de ceder espaço para que o nosso aluno compartilhe conosco seus saberes e talentos!! Neste caso, especialmente, podemos perceber que o “Olhar sobre a criança com (d)Eficiência” é uma opção a ser feita… podemos olhá-la a partir do que “lhes falta” ou, melhor, podemos optar por vê-la a partir de seus talentos e competências!!
A sala de aula, muitas vezes, com um número excessivo de alunos (universos diversos em suas especificidades) nos torna cegos para os talentos de cada um… impede este “olhar que vê, realmente o outro na busca de suas melhores qualidades”. E seu relato vem para nos reforçar a importância disto – de olharmos o outro, sempre, a partir de suas potencialidades… como alguém que pode aprender conosco, mas também ensinar muito para nós!!!
Espero ler outros relatos!!!
Grupo Matemática disse:
Bastante interessante essa observação acerca do “cheiro da chuva”!!! Ela é uma demonstração clara da questão do desenvolvimento de outros sentidos – ou seja, quando uma pessoa possui uma deficiência sensorial, ela aguça os sentidos remanescentes para ampliar sua percepção de mundo!
No caso da Juju, como ela não escuta o barulho da chuva, ela desenvolveu meios alternativos de perceber isto (além , claro, de utilizar as pistas visuais quando possível).
A percepção do “cheiro da chuva” também ocorre com deficientes visuais, cujo olfato geralmente é aguçado, para compensar o déficit visual! (Outra alternativa para os cegos é o recurso auditivo – ou seja, o som da chuva.)
Grupo Matemática disse:
Olá, prof. Salles! Veja o que escrevemos no nosso blog, cujo tema é Educação Inclusiva em Matemática, sobre a ótima postagem acima!
http://sopadenumerosecalculos.blogspot.com/2011/03/quer-saber-se-esta-chovendo-procure.html
Um abraço!